30.3.07
Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.
Luís de Camões
então Camões disse tudo novamente, em apenas um breve soneto...
ao mar!
e à um ótimo fim de semana, todos nós.
28.3.07
Odiar todas as rosas
porque uma te espetou...
Entregar todos os seus sonhos
porque um deles não se realizou...
Perder a fé em todas as orações
porque numa não foste atendido...
Desistir de todos os esforços
porque um deles fracassou...
É loucura...
Condenar todas as amizades
porque uma te traiu...
Descrer de todo o amor
porque um deles te foi infiel...
É loucura...
Jogar fora todas as chances de ser feliz
porque uma tentativa não deu certo...
Espero que na tua caminhada
não cometas estas loucuras!
Lembrando que sempre há uma outra chance...
Uma outra amizade...
Um outro amor...
Uma nova força...
É só ser perseverante
e procurar ser mais feliz a cada dia!"
não sei quem é o autor, se alguém souber, me avisa?
achei bonito. palavras que necessitamos escutar às vezes... nem que seja muito raramente e proferidas por lábios distantes, que não se vê, apenas se escuta...
27.3.07
"Canção de Crisóstomo
Pois desejas, cruel, que se publique
De boca em boca, e vá de gente em gente.
Do teu rigor a nunca vista força;
Farei que o mesmo inferno comunique
A este peito aflito um som veemente.
E à minha voz o usual estilo torça.
E a par do meu desejo, que se esforça
A contar minha dor e tuas façanhas,
Da voz terrível brotará o acento;
E nele envoltos por maior tormento
Pedaços destas míseras entranhas.
Escuta, pois, e presta atento ouvido,
Nã a aprazíveis sons, sim ao ruído,
Que desde o abismo do meu triste peito,
Obrigado e indômito delírio,
Sai para meu martírio e teu despeito.
O rugir do leão; o lobo fero
O ulular temeroso; o silvo horrendo
Da escamosa serpente; o formidável
Som de algum negro monstro; o grasno austero
Da gralha, ave de agouro; o mar fervendo
Em luta co'um tufão incontrastável
De já vencido touro o inamansável
Bramido; os ais da lúgubre rolinha
Na viuvez; o consternado canto
Do invejado mocho a par coo pranto
Do inferno todo, soem na dor minha,
E saia com esta alma exasperada
Uma explosão de música aterrada,
De confusão para os sentidos todos;
Pois a pena cruel que em mim padeço
Pede coo seu excesso estranhos modos.
De confusão tamanha ecos sentidos
Pelas praias do Tejo não ressoem;
Nem do Bétis nos ledos olivedos;
Por ali meus queixumes esparzidos
Por cavernas e penhas não ecoem
Para o mundo os terríveis meus segredos;
Vão por escuros vales, por degredos
De ermas praias a humano trato alheias,
Ou por onde jamais se enxergue dia,
Ou pela seca Líbia, onde se cria
Venenosa ralé de pragas feias;
Que inda que nesses páramos sem termo
Ninguém me escute os ais do peito enfermo,
Nem ouça o teu rigor tão sem segundo,
Por privilégio de meus curtos fados
Serão levados aos confins do mundo.
São veneno os desdéns; uma suspeita,
Ou verdadeira ou falsa, desespera;
E os zelos matam com rigor mais forte.
Ausência larga à morte nos sujeita;
Contra um temer olvido não se espera
Remédio no esperar ditosa sorte.
No fundo disso tudo há certa a morte;
Mas eu (milagre nunca visto!) vivo
Zeloso, ausente, desdenhado, e certo
Das suspeitas a que anda o peito aberto,
W do olvido em que o fogo em dobro avivo.
E entre tanto tormento, ao meu desejo
Nem uma luz de alívio ao longe vejo,
Nem já sequer fingi-la em mim procuro;
Antes, para requinte de querela,
Estar sem ela eternamente juro.
Pode-se juntamente, porventura,
Esperar e temer? E onde os temores
Têm mais razãoque a esp'rança, há de esperar-se?
Debalde os olhos furto à sina escura;
Pelas feridas d'alma os seus negrores
Não cessam um momento de mostrar-se.
Quem pode à desconfiança recusar-se,
Quando tão claramente se estão vendo
Os desdéns e os motivos de suspeita?
Ai verdades em fábulas desfeitas!
Ai câmbio infausto, lastimoso horrendo!
Ó do reino de amor feros tiranos
Zelos! dai-me um punhal; desdéns insanos,
Um baraço! um baraço! ai sorte crua,
Celebras tua última vitória;
Não há memória atroz igual à tua.
Eu enfim morro e, por que nunca espere
Que a morte me ressarça o mal da vida,
Persistirei na minha fantasia.
Direi que anda acertado quem prefere
A tudo o bem-querer, que a mais rendida
Alma é a que mais livre se gloria.
Direi que a minha algoz não acho ímpia
Senão que de alma, qual de corpo, é bela.
Que eu tenho a culpa, eu só, de sua fereza;
Que os males que nos causa com certeza
Não se opõem ao tão justo império dela.
Com esta crença e um rigoroso laço,
Da morte acelerando o extremo passo,
A que me hão seus desprezos condenado.
Darei pendente ao vento corpo e alma
Sem louro ou palma de outro e melhor fado.
Com tantas e sem-razões, puseste clara
A causa por que odeio e enjeito a vida
E pelas próprias mãos a lanço fora.
De tudo hoje razão se te depara:
Profunda e peçonhenta era a ferida;
De não mais a sofrer me eximo agora.
Se por dita conheces nesta hora
Que o claro céu dos olhos teus formosos
Não é razão que eu turbe, evita o pranto;
Tudo que por ti dei e não vale tanto
Que mo pagues com olhos lacrimosos.
Antes a rir na ocasião funesta
Mostra que este meu fim é tua festa.
Louco é quem aclarar-to assim se atreve
Sabendo ser-te a ânsia mais querida
Que a negra vida me termine em breve.
Vinde, sedes de Tântalo; penedo
De Sísifo; ave atroz que róis a Tício;
Vem, roda de Egeu com giro eterno;
Vinde a mim, vinde a mim; não é já cedo,
Tartáreo horror do mais cruel suplício,
Urnas de ímpias irmãs, cansado inferno.
Quantos sofrem tormento mais interno,
Vejam que igual cá dentro me trabalha;
E se a suicida exéquias são devidas,
Cantem-nas em voz baixa, e bem sentidas,
Ao morto, a quem faltou até mortalha.
E o porteiro infernal dos três semblantes
Coos outros monstros mil extravagantes,
Soltem-me o de profundis, pois entendo
Ser esta a pompa única devida
Do amante suicida ao caso horrendo.
Canção desesperada, não te queixes
Quando a chorar na solidão me deixes;
Se a glória dela no meu mal consiste,
E o perdimento meu lhe traz ventura,
Já minha sepultura é menos triste."
Cervantes
Esta, como diz o título, é a Canção de Crisóstomo. Rapaz letrado em letras e estrelas, que sabia dizer qual ano se deveria plantar trigo e qual deveria semear soja. Quando iria nascer e desmamar o novilho. Tomou a arte do pastoreio por encanto e acabou encantando-se pela bela Marcela, que desdenhou de seus sentimentos por ela, desdenhou de suas declarações, desdenhou de seu coração e seus pensamentos. E tal loucura e amor causou-o, por fim, o doce encontro com a Dama vestidada de cetim, que veio e com seu beijo frio o levou, sepultado, encontrar com o porteiro infernal de semblante tríplice. A canção é de Crisóstomo, mas a composição é de Cervantes, e a transcrição é de Augusto, que passa por momentos semelhantes, mas não iguais, aos de Crisóstomo.
23.3.07
"Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem perfeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz"
É bom, após as tempestades, pensar nelas e ver o quanto se aprende com estas dores. Assim estaremos prontos para tempestades e vendavais que virão e através deste doloroso processo acontece o milagre da evolução: o amadurecimento.
Gosto desta música. Eu a vivi. Depois que vivemos situações escritas em poesias e músicas, nos tornamos capazes de entender melhor o âmago e o sentimento destas palavras desembaraçadamente entrelaçadas. =]
see u all...
tomorrow or maybe when the wind want it... ;)
18.3.07
Torna mais difícil aprazir-se da verdade
Quando esta, em tons de crueldade
Nos escarra na face versos de maldade
Derrubando-nos nas sarjetas da cidade
Vadia imortal que seca nossos puros sentimentos
Deixa vazios secos e tórridos dentro do peito
Daqueles que não aguentam mais tais lamentos
E exaurem forças para ignorar maldito efeito
Isso! vem e prostitua este músculo venoso
À fim de conseguir este sustento saboroso
Que necessitas para abarrotar-lhe cada tripa
Gasta todo este despojado ser de carbono e sangue
Pois ainda abriga esta mente doentia, tosca, infame
Que com todos esforços pelejas para que não exista
Augusto TMW
Ó Morpheus, o que quer dizer-me com tais cenas?
Perda infame de toda e qualquer vivência
Deitado em fúnebre cama toda minha física essência
Ao findar de vez esta dança de músicas obscenas
Pego-me divagando sobre as reações.
Parentes viriam de longe, enfim, me visitar?
Amigos se reuniriam para beber e lamentar?
Como seria tal amálgama de emoções?
E ao deitar-me no colo da mãe em descanso eterno
Lembrariam-se de mim, do nosso viver, com afeto
Ou me esqueceriam logo, quando acabasse todo tormento?
Ficaria gravado e perpétuo nas memórias incandescentes
De momentos felizes, histórias e obras passadas aos descendentes
Ou acabaria de uma vez por todas selado e abandoado no abismo do esquecimento?
Augusto TMW
17.3.07
- "Qual é o gosto?" perguntou o Mestre.
- "Ruim " disse o aprendiz.
O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago.
Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago, então o velho disse:
- "Beba um pouco dessa água".
Enquanto a água escorria do queixo do jovem, o Mestre perguntou:
- "Qual é o gosto?"
- "Bom!" disse o rapaz
- "Você sente gosto do sal" perguntou o Mestre?
- "Não" disse o jovem.
O Mestre então sentou ao lado do jovem, pegou sua mão e disse:
- "A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende do lugar onde a colocamos. Então quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido das coisas. Deixe de ser um copo...
Torne-se um lago..."
15.3.07
Por que eu vivo procurando
Um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?
Procuro em todas, mas todas não são você
Eu quero apenas viver
Se não for para mim que seja pra você.
Mas às vezes você parece me ignorar
Sem nem ao menos me olhar
Me machucando pra valer.
Atrás dos meus sonhos eu vou correr
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.
Se a vida dá presente pra cada um O meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.
Quando estou só, preso na minha solidão
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.
Talvez eu seja um tolo,
Que acredita num sonho
Na procura de te esquecer
Eu fiz brotar a flor
Para carregar junto ao peito
E crer que esse mundo ainda tem jeito
E como príncipe sonhador
Sou um tolo que acredita ainda no amor.
PRÍNCIPE POETA (Alexandre Lemos)
Este poema foi escrito por um aluno da APAE, chamado, pela sociedade, de excepcional.
Excepcional é a sua sensibilidade! (comentário anonimo)"
Talvez os diferentes somos nós, insensíveis e cegos ao mundo que nos cerca e preenche.
14.3.07
Sonho com lembranças garridas
Momentos de épocas perdidas
Que muito me deixaram feridas
E cicatrizes que durarão várias vidas
Não sei por que escrevo este poema
Muito menos a escolha de tal tema
O porque de trazer à tona este problema
Ou impedir que se crave em mim pútrido emblema
Como algo causa tamanho estrago
À ponto de ambicionar noutro trago
Teu suave e tenro paladar amargo?
Apesar desta contenda me sinto até muito bem
Despreocupado com olhos no céu à imaginar um alguém
Que votos imortais fará e ao meu lado sempre estará, amém.
Augusto TMW
13.3.07
Penso que não consigo mais me separar
Anseio o momento de te sentir
É este vazio vem ao meu peito invadir
Tão intenso que mal consigo esperar
Quando, enfim, encontro-te à esmo
Sinto teu beijo frio tocar-me os lábios
E à partir deste momento não sou mais o mesmo
Torno-me mais um poeta dos alfarrábios
Neste embalo lento segue meu pulso
Me envolves em prazerosa carícia
Em teus braços, dos problemas me esqueço
Ao tempo que me olhas com malícia
Sei que tua intenção não é das melhores
E que por tua causa, me virão tempos piores
Mas deleito-me com teu sabor de menina
Minha odiada e amada nicotina
Augusto TMW
P.S.:(esse não é dos Anjos... hehe...)
10.3.07
"Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A sáude das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma
- O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramánicas tesouras,
Como um dorso de azémola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo á Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!
Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como urna vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infurtúnio.
Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!
Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!
E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.
Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!
Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!
E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
- Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!
A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.
E unia trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!...
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!
Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.
Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E á noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.
No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, á noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.
Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual á luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.
Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descamada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!
Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su'alma na cavema escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.
É o despertar de um povo subterrâneo!
E a fauna cavernícola do crânio
- Macbetbs da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sangüinárias
Que ele tem praticado na família.
As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!
Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!
Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de urna esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!
Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.
Continua o martírio das criaturas:
- O homicídio nas vielas mais escuras,
- O ferido que a hostil gleba atra escarva,
- O último solilóquio dos suicidas -
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!"
Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!
Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.
E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandiloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta á quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!"
autoria do meu chará, Augusto dos Anjos...
1.3.07
CANTO ÍNTIMO
Meu amor, em sonhos erra,
Muito longe, altivo e ufano
Do barulho do oceano
E do gemido da terra!
O Sol está moribundo.
Um grande recolhimento
Preside neste momento
Todas as forças do Mundo.
De lá, dos grandes espaços,
Onde há sonhos inefáveis
Vejo os vermes miseráveis
Que hão de comer os meus braços.
Ah! Se me ouvisses falando!
(E eu sei que ás dores resistes)
Dir-te-ia coisas tão tristes
Que acabarias chorando.
Que mal o amor me tem feito!
Duvidas?! Pois, se duvidas,
Vem cá, olha estas feridas,
Que o amor abriu no meu peito.
Passo longos dias, a esmo.
Não me queixo mais da sorte
Nem tenho medo da Morte
Que eu tenho a Morte em mim mesmo!
"Meu amor, em sonhos, erra,
Muito longe, altivo e ufano
Do barulho do oceano
E do gemido da terra!"
Augusto (não eu, mas) dos Anjos
quem dera eu ter o dom da escrita como meu xará aí acima... talvez meus feios traços seriam melhor compreendidos, as pessoas leriam as palavras soltas de minha alma e deixariam de ver elas mesmas nos traços e veriam o autor destes...