A partir do dia de hoje eu entro em luto. Pode parecer uma decisão precipitada, mas tenho certeza que é bastante realista. Estou entrando em luto, mas um luto saudável, não melancólico e muito menos saudosista, apenas luto em respeito, consideração e carinho. Hoje minha mãe me alertou algo no qual eu ainda não tinha pensado: este é o último final de semana do meu avô em minha casa! Provavelmente será uma das últimas vezes que eu irei vê-lo, pois tenho extrema angústia de ir à hospitais (mas se precisar eu vou!) e a partir de segunda-feira ele ficará internado, pois seu estado está cada vez menos animador. O glioblastoma já toma grande parte de sua massa cerebral e ele está 'sobrevivendo' cada vez com mais dificuldade, sua alimentação está sendo feita a partir de uma sonda que passa pelo nariz e chega até ao estômago. Ao fim deste fim de semana eu não verei mais o único avô do qual eu tenho alguma lembrança e que está 'vivo'.
Um fato curioso que eu reparei há alguns dias é que dos netos de minha avó materna, apenas o pequeno Arthur ainda tem dois avôs e, sendo realista, daqui a algum tempo nós sete ficaremos 'órfãos de avô'. Pena que minha lembrança dele saudável esteja bastante distorcida e vaga, pois me recordo pouco dele naquela época em que ele vivia sozinho lá na chácara e nós íamos visitá-lo nos fim de semana (apesar de eu não ter ido várias vezes, fato este que hoje me arrependo amargamente), a única lembrança desta época são os óculos grandes olhando pra mim, o andar manco do lado esquerdo, a calça marro e a camisa bege com listras finas.
Ah! meu avô... meu avô que sempre lembrou de todos os aniversários e datas importantes, mas não ligava pois queria fazer pose de avô durão, meu avô que gostava da gente de uma maneira diferente, oculta, que nos fazia até pensar que ele não tava nem aí. Meu avô que tinha uma kombi que cheirava a carne e ultimamente tinha uma fiorino caindo aos pedaços e adaptada para carregar porco por ele mesmo... meu teimoso avô, meu avô cabeça dura... se tivesse escutado um pouco mais minha avó, minha mãe e meus tios, talvez eu não estaria escrevendo sobre isso, e sim escrevendo sobre qualquer outra coisa corriqueira... meu avô que eu não vou ter mais... pode não parecer, mas eu gosto muito do meu avô, mas eu reconheço também que o ciclo dele já está fechando, e mais rápido do que qualquer um imaginava, mesmo com todos os cuidados que nós temos.
Sabiam que eu conheci meu avô melhor somente desde sua doença até o dia de hoje? Pois é, eu nunca tinha conversado, rido, contado piadas, falado bobagens e discutido futebol com meu avô, apenas de um tempo pra cá que eu tive oportunidade de fazer isso! E ele que sempre lembrava do nosso aniversário e nunca falou nada... eu lembro da noite que eu dormi com ele lá no Hospital de Base, era noite do dia 30 de Julho para o dia 01 de Julho e quando o dia estava nascendo, que eu já ia trocar de lugar com a Ana, que é nossa enfermeira e têm nos ajudado muito, ele se virou pra ela e disse: "Hoje é aniversário do meu neto! Ele está completando 19 anos!" e eu chorei. Chorei de alegria, pois vi que ele se importava comigo, e não só comigo, mas com todos nós...
Deixa eu ficar por aqui, meu post já tá muito grande e o nó na minha garganta tá aumentando...
sem mais...
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